Precisamos de um outro filme

Imprimir

Comentários - O mercado e os relacionamentos humanos

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire dia 05/05/2013

logo_avvenireImpressiona ver a quantidade de salas de cinema que se fecham nestes tempos de crise. O encerramento de uma sala não é só o fim de uma empresa. O cinema é também o ícone de um uso relacional do tempo que hoje encontra cada vez menos lugar numa sociedade onde o consumo está a assumir cada vez mais os contornos do indivíduo só e solitário. É a lei do mercado, dir-se-á. De um certo mercado anónimo, seria necessário acrescentar, que preenche com as suas mercadorias aquelas solidões que ele mesmo cria.

Não é necessário incomodar economistas e sociólogos para compreender que há uma diferença radical entre a experiência que faz quem vê um filme no cinema e quem vê o mesmo filme em casa, sobretudo se o primeiro é visto com amigos e o segundo sozinhos, porventura diante do computador. Quando se sai para ir ao cinema juntamente com amigos, preparamo-nos, investimos tempo na escolha que é fruto de diálogo com os outros, um diálogo que leva frequentemente a ver filmes que nunca teríamos visto se tivéssemos seguido unicamente os nossos gostos pessoais (descobri filmes esplêndidos para alegrar um amigo). Fala-se antes e, sobretudo, após o filme, um filme que de simples produto se transforma assim num encontro, onde à “mercadoria” se juntam outros bens, entre os quais são fundamentais aqueles bens relacionais que produzimos e consumimos juntos. Acontece também voltar ao cinema para rever o mesmo filme com outros amigos, porque agrada-nos ver se o nosso amigo se comove exatamente naquelas passagens nas quais me emocionei (e me re-emociono) também eu. A mútua “correspondência de sentimentos” (estar conscientes de que se está a experimentar juntos a mesma emoção), dizia Adam Smith há dois seculos e meio, é uma das principais fontes de felicidade. Este cruzamento de bens-emoções-relacionamentosnormalmente não acontece ou acontece de modo de modo mais empobrecido, no consumo individual de vídeo em casa para não falar do visionamento de obras-primas na TV. Todos sabemos que “Amarcord no cinema” e “Amarcord no computador” são duas realidades, dois bens muito diferentes – pena é que nos sejam apresentados (e vendidos) como idênticos.

E abre-se aqui uma reflexão muito mais geral. Até há tempos recentes, para poder “consumir” alguns bens (arte, cultura, festa, música, religiões, desporto, política, jogo, escola, cuidados e muito mais) devia necessariamente estar junto com os outros. A esses bens estavam indissociavelmente ligados também os bens relacionais. A música ouvia-se em concertos ou em salões de baile, o desporto nos campos ou pavilhões e ao cinema ia-se juntos. A invenção do mercado consente hoje e sempre mais, separar em muitos bens a componente relacional daquela propriamente individual. Posso ouvir sozinho música com a Ipod e, depois, quando e se quiser, sair com os amigos. Posso correr sozinho (com o Ipod), cruzando-me nos parques com muitos outros corredores solitários sem encontrar nenhum e, depois, se e quando quiser, cultivar as minhas amizades. O mesmo acontece com os filmes, com a política (passou-se dos comícios na praça a monólogos no sofá com políticos televisivos) e já também com a Universidade (em breve “compraremos” exames e títulos on-line sem necessidade de encontrar ninguém) numa progressiva separação das mercadorias dos relacionamentos humanos. Substituímos o relacionamento “eu-tu” (através da mercadoria) com o relacionamento “eu-mercadoria” e “tu-mercadoria”, remetendo o “nós” para um segundo, futuro, momento.

Este é o humanismo do mercado capitalístico (não de todo o mercado), do indivíduo, da liberdade de escolha. Também estes são valores do Ocidente e das suas raízes cristãs, que desempenharam uma função decisiva na libertação dos indivíduos de muitos, demasiados, relacionamentos não escolhidos, de “bailes” com as pessoas erradas e não amadas. Mas os estudos sobre o bem-estar das pessoas dizem-nos no entanto coisas que é bom ter presente para avaliar bem os benefícios do mercado juntamente com os seus custos e procurar porventura reformá-lo. A oferta de muitos bens depurados e esterilizados por relacionamentos pessoais tem visto, nas últimas décadas, uma aceleração impressionante. A concorrência de mercado, unida ao progresso técnico, baixa os custos dos bens e os custos monetários mas, sobretudo, os custos em termos de tempo.

Custa assim sempre menos tempo ver um filme em casa: nem tenho de sair, nem sequer levantar-me da cama. Mas – e eis aqui o ponto – sair de casa para ir ao cinema ou praticar desporto/esporte com os amigos, custa mais ou menos como há cem anos, para não falar do “custo” do investimento (de tempo, recursos, amor…) numa amizade ou numa família que custa, mais ou menos, como há mil anos. Para além disso é arriscado o tempo e os recursos investidos numa amizade, pode ferir-nos quando falta a reciprocidade. Por uma lei económica muito simples sabemos que quando o preço de um bem (mercadoria) desce muito e o custo do outro (bens relacionais) permanece constante, é como se o segundo custasse muito mais. Por outras palavras, um mercado que para aumentar as minhas liberdades me separa as mercadorias dos relacionamentos, na realidade está a tornar também muito custosos os bens relacionais. “Há dias – contou-me um meu colega – tinha pedido ao pai para irmos juntos ao concerto do coro de minha mulher. Toco à campainha e ele diz-me que tinha mudado de ideias. Compreendia-o: chovia, vestir-se, sair... era muito mais “custoso” que estar no sofá em frente de um filme”. E depois acrescentou: «Na manhã seguinte ter-se-á arrependido». O que fazer então? Podemos fazer pouco, mas alguma coisa sim. Antes de mais com a taxação dos bens que tem também a finalidade de favorecer os bens socialmente meritórios (e hoje os bens relacionais são-no, num mundo de crise de ligações e, por isso, de felicidade). Mas também com a educação.

Um primeiro passo poderá ser o de inserir nas escolas a educação ao consumo e ao relacionamento com os bens, ensinando a distinguir entre o consumo de mercadorias que são mercadorias e basta, dos bens relacionais que são também um investimento em vida boa. E depois ponhamos a tecnologia ao serviço dos relacionamentos. Penso naqueles círculos culturais, naquelas paróquias, onde hoje com uma despesa muto contida podem adquirir um projetor vídeo de qualidade e recriar novos 'cinematógrafos'. E podem assim recriar a magia do cinema, a alegria dos relacionamentos, das comunidades que hoje se estão a empobrecer demasiado, empobrecendo-nos a todos.


Todos os comentários de Luigino Bruni publicados em Avvenire estão disponíveis no menu Editoriais Avvenire