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Armadilha para desmontar

 Comentários - Itália e Europa, fisco e empresa

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire  dia 07/04/2013

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Estamos caindo numa verdadeira armadilha de pobreza. A espiral agora está bem delineada: (1) o Estado endividou-se e deve encontrar recursos; (2) os recursos não vem do rendimento/PIB porque estamos em recessão; (3) não resta, senão, o agravamento fiscal principalmente sobre famílias e empresas; (4) a pressão fiscal exasperada reduz ainda mais a renda produzida; (5) são necessárias outras taxas para encontrar os recursos; (6) ainda menos renda e… por aí afora, numa espécie de dança macabra que se enrosca sobre si mesma e em direção ao fundo.

E, como se não bastasse, as empresas não encontram crédito nos bancos bloqueados pelos seus próprios problemas (e miopias) e por regras externas. Ainda bem que, ontem, o governo Monti tomou uma medida - finalmente autorizada pela UE - que está destinada a pôr fim numa escandalosa opressão: as dívidas não pagas pela mesma máquina estatal que, com a outra mão, as molesta com uma pressão fiscal sobre as empresas que é quase o dobro da exercida sobre os rendimentos. Um teorema perfeito, que desempenharia um belo papel em qualquer tratado de economia que quisesse descrever a “crise perfeita” de um sistema econômico.

Tais “crises perfeitas” levaram ao declínio civilizações inteiras. Já sabemos que o caminho de saída real (não aqueles imaginados por ignorância ou propaganda) é um só: relançar o desenvolvimento econômico e por isso emprego, demanda e renda. Mas, na realidade, esta não é a solução, mas o coração do problema, porque para fazermos tudo isto, temos que afrouxar os vínculos impostos pela Europa sobre a equação dívida/PIB e permitir-nos investimentos públicos que nos consintam, daqui a alguns anos, retomar um sentido de verdadeiro desenvolvimento. Uma empresa que se encontra em crise grave pode e deve certamente reduzir os custos, mas se não investir e relançar um novo projeto de empresa não tem futuro. A crise ou é a aurora de um novo dia ou é o pôr-do-sol: urge estar atentos porque as cores do céu são semelhantes e podemos confundi-las.

Fico sempre mais convencido e, afortunadamente, em companhia de economistas como Amartya Sen - daquilo que nas páginas de "Avvenire" foi escrito mais e outras vezes: a Itália e os outros países em crise devem renegociar na Europa os conhecidos parâmetros  postos hoje pela Fiscal Compact e fazer nascer uma temporada de novos investimentos que relancem trabalho, empresa, competitividade e, antes de mais, escola e Universidade. As nossas empresas não estão “fritas”, podem partir de novo porque têm potencialidades ainda muito pouco valorizadas, entre as quais a sua cultura, arte, território, inteligências, turismo, sobretudo no Sul. Mas sem novos grandes investimentos de sistema e com uma visão (que hoje não existe), estes nossos imensos patrimônios não produzem rendimento nem emprego ou não produzem suficientemente.

Na armadilha em que caímos, os empresários, os trabalhadores, as famílias, sozinhos, não conseguem voltar a levantar-se: há uma urgente necessidade de uma ação pública decidida, forte, coerente, rápida. Mas há mais: os empresários e os trabalhadores estão exaustos e as energias restantes para resistir e não morrer verdadeiramente são poucas. E aqui, mais uma vez, é bom sermos claros: não existem álibis para ninguém, somente uma classe política e um Parlamento irresponsáveis podem assistir passivos a este cenário. Há depois um fator cultural a ter em conta. Se olharmos para a história damo-nos conta que as nossas classes dirigentes, na Itália e em muitos países latinos, não tiveram um olhar benévolo para com o trabalho, os comerciantes e as empresas. Olharam para os comerciantes como “Judas” (recorda - no-lo o título do belíssimo livro do historiador Giacomo Todeschini, 2011), ou seja, gente moralmente ambígua porque, exatamente como Judas, negociam com ‘finalidade de lucro’, por trinta dinheiros, por bens privados.

Ao invés, é bom o dinheiro despendido pelo Estado e pelos governantes, porque diferentemente dos mercadores, esse dinheiro tem como finalidade (diz-se) o Bem Comum, não o turpe lucrum. Assim, o débito público é diferente e moralmente melhor dos que os débitos e créditos privados, porque estes últimos nascem de interesses e egoísmos privados, enquanto o público nasce para o Bem Comum. Uma história antiga, de que não estamos sempre conscientes, mas que está bem enraizada na nossa consciência e práxis coletivas. Se, porém, quisermos sair da armadilha em que caímos, devemos olhar, política e culturalmente, para os empresários de maneira nova e diferente. Antes de mais, não vistos em oposição ao emprego, mas como seus aliados.

Depois, temos que deixar de confundir os verdadeiros empresários e a ação e vocação civil deles com os "especuladores" que destroem trabalhadores e ambiente e alimentam os “infernos fiscais” (mas não sabíamos já que os grandes bancos tinham filiais nestas ilhas infelizes, para operações offshore?). E nestas confusões os empresários continuam a ser considerados pela opinião pública como potenciais evasores e trapaceiros e, por isso, publicamente perseguidos. Estes são verdadeiramente pecados sociais, de que todos somos responsáveis se ficarmos passivos e calados.

É necessário um novo conceito sobre trabalho e empresários. E tópicos e sugestões que nos chegam ainda de Francisco e da tradição franciscana que, mesmo se pode parecer paradoxal, dada a renúncia por parte do pobre frade de Assis justamente na sua condição inicial de rico comerciante internacional - valorizou os comerciantes e a sua função social. Não os considerava “como Judas”, mas deu vida a uma Ordem terciária que incluía muitos deles. Aconteceu uma estranha afinidade eletiva entre os pobres por escolha e muitos comerciantes, sabedores acerca de dinheiro e de finanças.

Não se esqueça que em muitas cidades medievais, os comerciantes eram contados entre os pauperes, entre os pobres, porque não se beneficiavam de rendas, mas de rendimentos dependentes dos riscos do mercado, das suas incertezas e adversidades. Hoje como ontem, o empresário verdadeiro é alguém que arrisca os próprios talentos e recursos para criar bens e trabalho. E por isso é amigo dos pobres, sobretudo dos pobres de trabalho. Não vive de rendas e, por isso, se não cria e inova, cai por terra. E pode cair mesmo inovando e desempenhando bem a própria função: constamos isso muitas vezes nestes tempos de crise e de perseguições. A possibilidade da desventura é parte da condição humana, também dos justos, mas para estes pode não ser a última palavra. Vamos devolver a confiança e a estima aos empresários e, com eles, ao mundo da empresa que é o lugar onde o trabalho nasce, cresce, frutifica. E, como cidadãos, peçamos mais, muito mais à política e às nossas instituições nacionais e europeias: mesmo se hoje cansadas e desgastadas, só com elas

 

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